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Semedo aconselha Governo a demitir-se a tempo de entrar na campanha de Merkel

João Semedo
João Semedo

O debate do Orçamento na especialidade prossegue na Assembleia da República e esta terça-feira Vítor Gaspar esteve na Comissão Eventual de Acompanhamento das Medidas do Programa de Assistência Económica e Financeira. O ministro das Finanças diz que só em fevereiro irá divulgar onde quer cortar quatro mil milhões de euros na despesa pública e rejeitou a necessidade de rever a Constituição para aplicar o seu programa radical.

Também Carlos Moedas, o braço-direito de Passos Coelho para as negociações com a troika, foi ao Parlamento dizer aos deputados que os técnicos do FMI e do Banco Mundial vieram "comparar a máquina do Estado português com a máquina de outros países em que estes técnicos têm experiencia". Estes técnicos irão dar ao Governo a sua receita de cortes nos ministérios e a fazer "o primeiro diagnóstico sobre a despesa pública em Portugal", revelou ainda Vítor Gaspar.

Dívida em 60% do PIB "vai demorar décadas"

Outra das revelações do ministro das Finanças é que a dívida portuguesa - que nos próximos anos se irá multiplicar com os empréstimos da troika a juros bem acima dos praticados pelo Banco Central Europeu - só regressará aos limites impostos pelo Tratado de Lisboa dentro de "algumas décadas".

Apesar disso, minutos depois Gaspar garantiu aos deputados que afinal "é falso concluir que existe um problema de sustentabilidade da dívida pública portuguesa" e que esta "começará a decrescer em percentagem do PIB já a partir de 2014". Isto, claro, no caso do país conseguir regressar aos mercados em 2013, uma hipótese considerada irrealista pelas próprias agências de rating.

Ou seja, o Governo assume que o programa de empobrecimento drástico que está a aplicar ao país não terá nenhum efeito sobre a dívida e remete o resultado da receita para daqui a algumas décadas, quando nem sequer consegue acertar na execução orçamental com um ano de antecedência. "As previsões macroeconómicas tendem a ser menos precisas" em tempo de crise, desculpou-se Gaspar.

O deputado João Semedo voltou a defender a renegociação da dívida, que o Governo se recusa a admitir, e afirmou que essa atitude de Passos Coelho e Gaspar está a isolá-los cada vez mais do resto do país, aconselhando-os a pedirem a demissão de forma a conseguirem fazer campanha por Angela Merkel, com quem se identificam politicamente, nas eleições alemãs do início do ano.

Na resposta, Vítor Gaspar disse sentir-se ofendido com "a repetição da insinuação de que o Governo e eu próprio estamos a defender uma estratégia ao serviço de interesses estrangeiros".